O envelhecer e o luto do corpo jovem

Atualizado: Set 16


O conceito de velhice assim como de juventude sofre muitas transformações aos longos dos anos. Sempre reconhecemos a velhice no outro, porém nunca em nós mesmos. Desta forma, quando somos jovens consideramos aqueles com mais idades que nós como pessoas velhas, e isso se dá suscetivelmente sem que enxerguemos nosso próprio processo de envelhecimento.


A velhice ela é um processo inacabado de subjetivação, ou seja, ela não é unicamente um estado, mas algo que vai ser construído a cada dia, como a própria palavra diz “envelhecer”. Um dos autores sobre o assunto, Goldfar, descreve o quão difícil é falar da velhice, no sentido de defini-la, pois todos os caminhos que percorremos para definição trazem um teor de grande negativismo sobre a velhice, e no final não é isso que os definem, pois cada um envelhece a seu modo, ninguém nasceu para ser igual.


Nas sociedades tradicionais as figuras dos velhos eram cheios de representações tais como sabedoria e paciência, eram valorizados; para juventude eram como um exemplo a serem seguidos. Com o passar dos anos os valores foram se perdendo onde o velho, por não ser reprodutor de vida nem produtor de riqueza, nada vale; o valor social da velhice passa então a ser associado à inutilidade e decrepitude.


O discurso de exaltação a juventude coloca o idoso num modelo de desvalorização, ao qual ele acaba se identificando, lhe tirando seus desejos e direitos à cidadania, pois sente-se como não sendo mais uma fonte de prazer. O que está faltando é o reconhecimento da sociedade, e uma falta de investimento para com este sujeito "se o limite da vida humana é a morte, a velhice é a fase da existência que está mais próxima deste horizonte” (GOLDFARB, 1997), desta forma, eles têm se tornado, para as sociedades, suporte de significações negativas.


A velhice é marcada por períodos de perdas muito marcantes, onde há o confronto do Eu – ideal x realidade corporal. Sentem-se como se estivessem incompletos, seu Eu está desvalorizado. Aquilo que outrora era belo perde sua beleza, em tudo e em todos, perde-se a ilusão da própria potência. Ter que aceitar a pulsão da morte, que é inevitável, porém continuar lutando com ela. O Luto é sentido pela própria vida, que apesar de estar sendo vivida é um corpo que já está condenado. “A ameaça de aniquilação pela morte não é um sentimento ao qual alguém se adapte. O Eu, antes de qualquer outra coisa, exige continuidade”. (GOLDFARB, 1997).


O objetivo final é envelhecer bem, mas como isso é um processo, vamos plantar a semente no presente, assim quando estivermos no futuro colheremos bons frutos. O corpo jovem se vai, mas a mente conservará a jovialidade.


Fonte: GOLDFARB, Dellia Catullo. Corpo, Tempo e Envelhecimento. Dissertação de mestrado, 1997.


Por: Leticia Gonzales de Souza, colaboradora da SabiaMente.



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